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poesias

Meu avô
Meu avô sempre estava ali,
na foto da sala.Naquele si
lêncio permanente.Sério!Um
tanto compenetrado,com seu
olhar fixo,sizudo,a olhar
um mundo que já não era
o seu.
A foto em branco e preto,es-
condia os cabelos grisalhos
que o pincel dos anos pintou.
Eu,da janela,ora olhava oscar
ros que pasavam veloz,ora me
virava pra ele,como se espera-
se que de sua boca ouvisse al-
gum som de palavras.
Eu guardo uma ternura imensa
do meu avô.Seu jeito brinca -
lhão.Tantas vezes para irri -
tar minha vó,e para algazar-
ra dos netos,ele falava poe -
sias antigas pra ela. Coisas
do tempo em que se amarrava
cachorro com linguiça.
Minha vó ficava fula da vida,
e nós riámos de chorar.
E da janela eu observava meu
avô,sério,sem saber do quanto
o mundo mudou.Sem saber que
já não usamos mais as cartas
para nos comunicármos,os namo-
ros hoje em grande parte são
via ondas eletromagnéticas.
Aos 100 e poucos anos partiu
meu avô para sempre.Às vezes
lembro dele colocando o óleo
da carne em nosso prato.To -
mando café,tão quente que a
fumaça cobria a borda da xí-
cara.Suas histórias do tempo
antigo.Histórias de assombra-
ssão.Da vida no sítio,das ma-
drugadas a galopar pelas vi-
elas escuras do interior.
ah,vô Emídio...se eu tivesse
uma máquina do tempo... nem
sei o que eu faria para vê-lo
sorrindo de novo.Nem sei!
É tragicômico a forma
como as pessoas passam
por nós,e nós passamos
por elas.Mais a vida
deve seguir em frente.

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